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Ashwagandha: que benefícios estão provados? Limites e precauções

Stress, cortisol, sono, desporto, fertilidade: o que os ensaios da ashwagandha realmente mediram, porque continuam frágeis os resultados e quem deve evitar a planta segundo a ANSES.

Raízes secas e bagas de ashwagandha, pó de raiz numa taça hexagonal sobre fundo azul-celeste

Os benefícios da ashwagandha tornaram-se um argumento omnipresente: stress, cortisol, sono, desporto, fertilidade. Esta planta da medicina ayurvédica, Withania somnifera, tem, porém, duas faces. Conta com mais ensaios clínicos do que a maioria das plantas, mas a agência francesa de segurança sanitária ANSES recomenda que vários grupos a evitem. Eis o que os estudos realmente medem, os seus limites e as precauções a conhecer antes de a tomar.

O essencial

  • Uma meta-análise de 12 ensaios sugere uma redução do stress e da ansiedade percebidos, com um grau de certeza considerado baixo.
  • Os extratos testados diferem muito entre estudos e alguns ensaios são financiados pelos seus fabricantes.
  • Foram comunicadas lesões hepáticas, por vezes graves, e efeitos na tiroide.
  • Não existe nenhuma alegação de saúde autorizada para a ashwagandha; a ANSES desaconselha-a, nomeadamente durante a gravidez e em caso de doença da tiroide.

O que é a ashwagandha?

A ashwagandha (Withania somnifera) é uma planta arbustiva da família das solanáceas, utilizada há séculos na medicina ayurvédica. Por vezes é chamada «ginseng indiano», embora não tenha relação botânica com o ginseng. São sobretudo as suas raízes que entram nos suplementos alimentares, sob a forma de pó ou de extratos.

Os seus principais compostos são lactonas esteroides, os withanólidos, e alcaloides. Os teores variam muito consoante a parte da planta e o extrato, o que dificulta a comparação dos estudos. A ANSES assinala também suplementos que deveriam conter raiz, mas são adulterados com folhas, mais ricas em alcaloides.

Que benefícios da ashwagandha mediram os estudos?

Não existe nenhuma alegação de saúde autorizada para a ashwagandha na União Europeia. Os resultados abaixo descrevem, por isso, estudos, com as respetivas doses e populações, e não efeitos que um produto possa reivindicar.

Stress percebido e cortisol

É a área mais estudada. Uma meta-análise de 2022 reuniu 12 ensaios aleatorizados, com 1 002 participantes dos 25 aos 48 anos: a ashwagandha reduzia mais o stress e a ansiedade percebidos do que o placebo. Contudo, os resultados variavam muito entre ensaios e os autores consideram que a certeza da evidência é baixa.

Dois ensaios ilustram estes dados. Em 64 adultos com stress, 300mg de extrato de raiz duas vezes por dia durante 60 dias reduziram a pontuação de stress percebido em 44 %, contra 5,5 % com placebo, e o cortisol sanguíneo em 27,9 %, contra 7,9 %. Em 60 adultos, 240mg de extrato por dia durante 60 dias reduziram a ansiedade avaliada por um clínico e o cortisol matinal, mas não significativamente a pontuação de stress autoavaliado. Este segundo ensaio foi financiado pelo fabricante do extrato.

Sono

Uma meta-análise de cinco ensaios, com 400 participantes, mostra um efeito pequeno, mas significativo, na qualidade global do sono. Era mais nítido nas pessoas com insónia, a partir de 600mg por dia e após pelo menos oito semanas. Os autores sublinham a falta de dados de segurança a longo prazo. Para contextualizar estes resultados, vê o nosso artigo sobre o sono e a melatonina.

Desempenho físico

Uma meta-análise bayesiana de 2021, com 12 estudos em adultos saudáveis, conclui que existe uma vantagem sobre o placebo na força, na capacidade cardiorrespiratória e na recuperação. Os ensaios continuam a ser pequenos e os autores pedem estudos mais comparáveis, nomeadamente em desportistas treinados.

Fertilidade masculina

Num estudo-piloto, 46 homens com oligospermia (menos de 20 milhões de espermatozoides por mililitro) receberam 675mg de extrato por dia ou placebo durante 90 dias. O número de espermatozoides aumentou 167 % no grupo da ashwagandha, com um aumento do volume do sémen e da mobilidade dos espermatozoides. É um tema de investigação: um único pequeno ensaio não permite tirar conclusões e a infertilidade exige avaliação médica.

Tiroide

Em 50 adultos com hipotiroidismo subclínico (TSH entre 4,5 e 10 mUI/l), 600mg de extrato por dia durante oito semanas reduziram a TSH e aumentaram as hormonas T3 e T4 em relação ao placebo. Este efeito hormonal também suscita preocupação: foram comunicados casos de tirotoxicose (excesso de hormonas da tiroide). O nosso artigo sobre o iodo e o funcionamento da tiroide recorda os princípios básicos.

Área Melhores dados disponíveis Resultado Principal limitação
Stress, ansiedade Meta-análise, 12 ensaios Redução face ao placebo Baixa certeza da evidência
Sono Meta-análise, 5 ensaios Efeito pequeno Poucos ensaios
Desempenho físico Meta-análise, 12 estudos Vantagem sobre o placebo Amostras pequenas
Fertilidade masculina Ensaio-piloto, 46 homens Espermatozoides +167 % Um único pequeno ensaio
Tiroide Ensaio, 50 doentes TSH reduzida Efeito hormonal a vigiar

Porque continuam frágeis estes resultados?

  • Amostras pequenas e durações curtas: os ensaios citados incluem entre 46 e 64 pessoas, acompanhadas durante 8 a 13 semanas.
  • Extratos não comparáveis: parte da planta, solvente, teor de withanólidos… A ANSES observa que os estudos raramente especificam a composição do extrato.
  • Financiamento industrial: alguns ensaios são financiados pelo produtor do extrato testado.

Estas limitações não anulam os resultados, mas impedem transpor um valor de um estudo para qualquer produto vendido como ashwagandha.

A ashwagandha é perigosa para o fígado?

As lesões hepáticas são raras, mas estão documentadas. A base LiverTox dos institutos nacionais de saúde dos Estados Unidos indica que a ashwagandha não foi associada a aumentos das enzimas hepáticas durante a utilização, mas esteve implicada em casos de lesão hepática clinicamente evidente. Uma série de cinco casos, na Islândia e nos Estados Unidos, descreve icterícia surgida 2 a 12 semanas após o início da toma, com comichão prolongada; as análises normalizaram em 1 a 5 meses em quatro desses casos.

Uma série indiana publicada em 2023 é mais preocupante. Entre oito doentes que tinham tomado um produto contendo apenas ashwagandha, cinco tinham doença hepática preexistente; três desenvolveram insuficiência hepática aguda sobre doença crónica e morreram. Icterícia, urina escura ou comichão invulgar exigem interromper a toma e consultar um médico.

Quem deve evitar a ashwagandha?

No parecer de 19 de abril de 2024, a ANSES recomenda evitar suplementos com ashwagandha em caso de doença da tiroide, do fígado ou do coração, hiperandrogenismo, gravidez e tratamento sedativo ou depressor do sistema nervoso central. Por precaução, desaconselha-os também durante a amamentação e antes dos 18 anos. Devido à sonolência observada nos ensaios, desaconselha a planta a quem conduz.

O Instituto Federal Alemão de Avaliação dos Riscos (BfR) formulou em setembro de 2024 recomendações semelhantes para crianças, grávidas ou mulheres a amamentar e pessoas com doença hepática. Os institutos nacionais de saúde dos Estados Unidos também a desaconselham em caso de doença autoimune, cancro da próstata hormonodependente ou cirurgia programada.

Quais são as interações com medicamentos?

As fontes oficiais assinalam possíveis interações com:

  • sedativos, como benzodiazepinas e medicamentos para dormir;
  • hormonas da tiroide, como a levotiroxina;
  • imunossupressores;
  • medicamentos para a diabetes e a hipertensão;
  • antiepiléticos.

A ashwagandha está proibida em França ou na Europa?

Em França, não, à data de redação (outubro de 2026): em 2024, a ANSES emitiu as recomendações de prudência acima detalhadas, sem proibição de venda. A Dinamarca, pelo contrário, proibiu-a nos suplementos alimentares em 2023, após uma avaliação dos riscos realizada em 2020, e a Alemanha recomenda não a utilizar. As listas de plantas autorizadas não estão harmonizadas a nível europeu, algo que a ANSES sublinha ao pedir uma harmonização.

Perguntas frequentes

Quanto tempo demora a ashwagandha a fazer efeito?

Os ensaios citados avaliaram os resultados após 8 a 13 semanas, e o efeito no sono era mais nítido para além de oito semanas. Os estudos citados não mostram um efeito estabelecido em poucos dias.

Deve tomar-se de manhã ou à noite?

Os ensaios citados não compararam horários de toma: usaram uma a três tomas por dia. Como a planta pode causar sonolência, não se deve conduzir se este efeito surgir. A sonolência diurna justifica interromper a toma e falar com um profissional.

Pode tomar-se continuamente?

Os dados de tolerabilidade dizem respeito sobretudo a períodos de utilização de três meses, no máximo. Segundo o Gabinete de Suplementos Alimentares dos institutos nacionais de saúde dos Estados Unidos, a segurança a longo prazo não é conhecida. A utilização prolongada merece, por isso, aconselhamento médico, sobretudo em caso de medicação.

A ashwagandha pode atenuar as emoções?

Relatos na internet descrevem uma sensação de emoções «apagadas». Esta perceção não foi medida nos ensaios aqui citados, que não permitem confirmá-la nem excluí-la. Qualquer alteração invulgar do humor justifica interromper a toma e falar com um médico.

Pó de raiz ou extrato: qual é a diferença?

Os ensaios utilizaram extratos padronizados, em doses de algumas centenas de miligramas. Um pó de raiz não concentrado não fornece as mesmas quantidades de compostos e as doses não são transponíveis. Para compreender as formas, vê o nosso artigo sobre cápsulas duras, cápsulas moles e comprimidos.

A ashwagandha aumenta a testosterona?

Os dados são limitados. No ensaio de 2019 realizado com 60 adultos, a testosterona aumentou nos homens ao longo do estudo, sem diferença significativa em relação ao placebo. É devido a este possível efeito que a planta é desaconselhada em caso de cancro da próstata hormonodependente.

Conclusão

Os benefícios da ashwagandha mais bem documentados dizem respeito ao stress percebido e, em menor grau, ao sono: efeitos mensuráveis, provenientes de ensaios pequenos, curtos e heterogéneos. Em contrapartida, os sinais de segurança são sérios, sobretudo para o fígado e a tiroide, e as autoridades francesas e alemãs recomendam prudência a muitos grupos de pessoas. A utilização da planta deve, por isso, ser discutida caso a caso, idealmente com um profissional de saúde. Outras possibilidades estudadas são apresentadas no nosso artigo sobre o stress e os ingredientes estudados neste contexto. A passiflora, menos estudada, tem um uso tradicional reconhecido na Europa como medicamento à base de plantas, sem alegação autorizada em suplementos alimentares.

Fontes

  1. Akhgarjand C et al. (2022). Does Ashwagandha supplementation have a beneficial effect on the management of anxiety and stress? A systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials. Phytotherapy Research, 36(11), 4115-4124. doi:10.1002/ptr.7598
  2. Chandrasekhar K, Kapoor J, Anishetty S (2012). A prospective, randomized double-blind, placebo-controlled study of safety and efficacy of a high-concentration full-spectrum extract of ashwagandha root in reducing stress and anxiety in adults. Indian Journal of Psychological Medicine, 34(3), 255-262. doi:10.4103/0253-7176.106022
  3. Lopresti AL et al. (2019). An investigation into the stress-relieving and pharmacological actions of an ashwagandha (Withania somnifera) extract: A randomized, double-blind, placebo-controlled study. Medicine, 98(37), e17186. doi:10.1097/MD.0000000000017186
  4. Cheah KL et al. (2021). Effect of Ashwagandha (Withania somnifera) extract on sleep: A systematic review and meta-analysis. PLoS One, 16(9), e0257843. doi:10.1371/journal.pone.0257843
  5. Bonilla DA et al. (2021). Effects of Ashwagandha (Withania somnifera) on Physical Performance: Systematic Review and Bayesian Meta-Analysis. Journal of Functional Morphology and Kinesiology, 6(1), 20. doi:10.3390/jfmk6010020
  6. Ambiye VR et al. (2013). Clinical Evaluation of the Spermatogenic Activity of the Root Extract of Ashwagandha (Withania somnifera) in Oligospermic Males: A Pilot Study. Evidence-Based Complementary and Alternative Medicine, 2013, 571420. doi:10.1155/2013/571420
  7. Sharma AK, Basu I, Singh S (2018). Efficacy and Safety of Ashwagandha Root Extract in Subclinical Hypothyroid Patients: A Double-Blind, Randomized Placebo-Controlled Trial. Journal of Alternative and Complementary Medicine, 24(3), 243-248. doi:10.1089/acm.2017.0183
  8. National Institute of Diabetes and Digestive and Kidney Diseases. LiverTox: Clinical and Research Information on Drug-Induced Liver Injury. Ashwagandha. NCBI Bookshelf. ncbi.nlm.nih.gov
  9. Björnsson HK et al. (2020). Ashwagandha-induced liver injury: A case series from Iceland and the US Drug-Induced Liver Injury Network. Liver International, 40(4), 825-829. doi:10.1111/liv.14393
  10. Philips CA et al. (2023). Ashwagandha-induced liver injury: A case series from India and literature review. Hepatology Communications, 7(10), e0270. doi:10.1097/HC9.0000000000000270
  11. Anses (2024). Avis relatif aux risques liés à l'utilisation des préparations de Withania somnifera (L.) Dunal dans les compléments alimentaires. Pedido n.º 2021-SA-0077, 19 de abril de 2024. anses.fr
  12. BfR (2024). Ashwagandha: food supplements with potential health risks. Comunicado 39/2024, 10 de setembro de 2024. bfr.bund.de
  13. NIH Office of Dietary Supplements (2025). Ashwagandha: Is it helpful for stress, anxiety, or sleep? Ficha para profissionais de saúde, atualizada em 2 de maio de 2025. ods.od.nih.gov
  14. NCCIH (2023). Ashwagandha: Usefulness and Safety. National Center for Complementary and Integrative Health. nccih.nih.gov

Os suplementos alimentares não substituem uma alimentação variada e equilibrada nem um estilo de vida saudável. Pede aconselhamento a um profissional de saúde em caso de medicação, gravidez ou amamentação.

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